segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

São Paulo, a cidade onde a vida passa através do para-brisa



No final de noite desta quinta-feira (13), horas depois de uma chuvarada, a apresentadora de uma rádio paulistana especializada em trânsito entrou no ar e disse: “Levei quatro horas para vir do centro de São Paulo até o estúdio, aqui no Morumbi”. É um trajeto que, em condições normais e fora do horário de pico (depois das 20h), não levaria mais que 45 minutos, estourando.


Antes, na noite de quarta-feira (12), quando o São Paulo sagrou-se campeão da Copa Sul-americana — jogando também no bairro do Morumbi –, uma colega partiu da região central, às 19h, mas desistiu de ir ao jogo após levar cerca de uma hora para atravessar somente o túnel Ayrton Senna, no sentido zona sul. Decidiu então ir para casa, no sentido oposto, mas não conseguiu achar um jeito de driblar o trânsito 100% travado no seu itinerário. Parou numa padaria 24h, viu parte do jogo na TV, foi embora — e chegou em casa por volta da meia-noite.
Por fim, eu mesmo, deixando o UOL por volta de 23h30 nesta quinta, olhei o trânsito pela janela e quase desisti: a avenida Faria Lima estava parada nos dois sentidos, bem como a Rebouças/Eusébio Matoso. Respirei fundo, e fui embora — mas tive de fazer um caminho praticamente surreal, no sentido oposto de minha casa e atravessando para o outro lado do rio Pinheiros, acrescentando  cerca de 20 km aos 6 km habituais até onde moro.
Houve chuva, é verdade, e houve eventos (jogo na quarta, e, ontem à noite, show de Andrea Bocceli no Jockey Clube). Mas não é desculpa. São Paulo não poderia parar — mas para.
Zé Carlos Baretta/FolhapressTrânsito na avenida Paulista, em São Paulo, na noite de quinta-feira (13)
Corta para o prefeito eleito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, na segunda-feira (10). Em meio a questionamentos sobre quanto vai custar a tarifa de ônibus na cidade após a posse, o futuro gerente do nosso caos disse algo extremamente importante.
“É um direito do cidadão ter um bem como o carro; os trabalhadores da Europa e dos Estados Unidos têm carros”, afirmou Haddad, marcando posição distante do anticarrismo de quem vê o automóvel particular com fonte de todos os males urbanísticos e ambientais do planeta.
Mas ele acrescentou, não com essas exatas palavras, que o ideal é que o carro seja usado para o lazer, em viagens, nos fins de semana; no dia-a-dia, para ir ao trabalho, aos estudos, o ideal é usar o transporte coletivo. Claro, se houver transporte coletivo.
Subscrevo o que disse Haddad, mas com ressalvas. A coisa funciona assim mesmo na Europa, mas a excepcional malha ferroviária daquele continente torna o carro dispensável até mesmo para viagens mais longas e/ou internacionais. Em Paris, ter um automóvel é inútil para quem mora na abrangente zona 1 do metrô; em cidades relativamente pequenas e planas, como Berlim e Copenhague, quem não usa bicicleta é ogro.
Nos EUA é diferente, talvez devido ao histórico culto ao carro e à concepção urbanística que levou as classes altas urbanas a morar em subúrbios desprovidos de transporte público, e que também colocou o megacomércio (como os outlets) fora das regiões mais adensadas.
Não estou apontando um mau passo retórico do prefeito eleito. Haddad está certo em seu diagnóstico, embora os dois eventos que ajudaram a travar São Paulo na quarta e na quinta tenham sido de lazer — e o ideal era que as pessoas pudessem ter ido até eles de condução.
Uma versão mais radical do mote, e que nos agrada mais, seria: Sempre que possível, a qualquer dia e hora e para qualquer fim, use o transporte coletivo. Ponto. Em São Paulo, pelos próximos quatro anos caberá a Haddad fazer com que essa proposta seja atraente, vale dizer, que haja transporte coletivo de qualidade, no que se tratar da esfera municipal. Caso contrário, não é justo impedir os paulistanos de optarem pelo carro — sempre, a qualquer dia e hora e para qualquer fim. Mesmo que isso signifique perder horas de vida (irrecuperáveis) presos num congestionamento de proporções cortazarianas, vendo o mundo passar (ou parar) através do para-brisa.
por Claudio Luís de Souza

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