segunda-feira, 28 de maio de 2012

Para analistas, acabou crescimento de dois dígitos, mas mercado automotivo ainda avança


Estoques elevados de veículos novos esperando comprador no Brasil marcam uma nova realidade de um setor que desde 2007 vem registrando recordes sucessivos de vendas. A restrição do crédito em 2012 após salto nos calotes de financiamentos e as incertezas sobre a economia estão levando consumidores a postergarem suas decisões de compra de automóveis.


A disparada das vendas dos últimos cinco anos, que passaram do patamar de 2 milhões de veículos por ano para perto de 4 milhões previstos para 2012, reduziu o potencial de crescimento acelerado da indústria e trouxe à tona risco da inadimplência em um setor que tem 60% de suas vendas feitas à prazo.
"Boa parte de quem podia comprar carro já comprou, e talvez até quem não podia já comprou também", disse o economista Francisco Pessoa, da consultoria LCA. "Muita gente não está conseguindo arcar com os custos da posse e manutenção de um carro." Segundo ele, enquanto em 2000 o país tinha 8,8 habitantes por veículo, a relação passou a 6,4 em 2009 e a 5,6 em 2011, uma evolução de 58%.
"Talvez com um novo movimento de renovação de frota, ainda que nossa frota seja bem nova, essa relação possa cair mais", disse Pessoa.
Enquanto isso não ocorre, o governo voltou a atender queixas da indústria automotiva nacional, anunciando nesta semana pacote de medidas de estímulo que incluíram Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) reduzido nos carros de até 1.000 cm³ de 7% para zero, até o final de agosto.
Além disso, o governo decidiu liberar compulsório de bancos para financiamento de carros e veículos leves.
O compromisso ocorreu em troca de redução de preços pelas montadoras, que nesta semana mesmo já divulgaram novas tabelas de preços incorporando o imposto menor, caso de marcas como Volkswagen, Ford, Nissan e Peugeot.
O pacote veio depois que bancos passaram a frear o crédito para financiamento de veículos este ano. Em abril, calotes no financiamento de automóveis voltaram a bater recorde, atingindo 5,9%, ante a marca anterior de 5,7% registrada em março. Um ano antes, o patamar estava em 3%. Ao mesmo tempo, prazos de financiamento que chegaram a 60 meses anteriores caíram e a parcela de entrada para compra do carro novo cresceu, deixando de fora famílias de renda menor.
ESTOQUE ALTO
A freada nos financiamentos, segundo montadoras e analistas, ajudou os estoques de veículos novos não vendidos a crescer para 43 dias em abril, maior nível desde novembro de 2008, durante a última crise financeira internacional. Em abril de 2011, o volume estocado era suficiente para 33 dias de vendas, nível considerado normal pela indústria.
"Estamos no limite de um modelo de crescimento que já se esvaiu e que tem que ser modificado agora. Não basta dar crédito, a modificação tem DE vir com a desoneração do custo de produção para tornar o veículo mais barato", defende o professor da área de gestão de riscos Claudio Gonçalves, da Trevisan Escola de Negócios.
"O endividamento das famílias não atingiu limite, mas não se pode calcar o crescimento do país apenas nisso, em algum momento a conta precisa ser paga. O período de crescimento anual de dois dígitos nas vendas de veículos já está superado", acrescentou.
Na avaliação do consultor Dario Gaspar, sócio da AT Kearney, o que o governo está tentando promover com o pacote anunciado nesta semana é evitar o alongamento de tempo para a troca dos veículos dos consumidores, característico em períodos de incerteza. "A maior parte das vendas de novos carros ocorre para renovação. O que acontece agora é que pioraram as expectativas econômicas, o crédito secou e as famílias estão mais endividadas", afirma.
Segundo o diretor associado da AT Kearney, David Wong, citando dados do Banco Central, a média das famílias brasileiras está com de 20% a 25% de sua renda comprometida com crédito. "Isso mostra que estão perto do limite de endividamento, já que o ideal é que uma família possa comprometer até 30% da sua renda com dívida."
CRESCE QUANTO?
Apesar do cenário adverso, analistas consideram que a indústria automotiva deve manter investimentos no Brasil, diante do quadro externo negativo que torna a expansão de vendas no país mesmo abaixo de 5% atraente. Por ora, a associação de montadoras Anfavea mantém previsão de aumento das vendas em 2012 entre 4% e 5%, para até 3,81 milhões de unidades -- algo encarado com receio por economistas e que poderá marcar o sexto recorde anual consecutivo.
"Crescer os 4% previstos pela Anfavea em 2012 é uma tarefa hercúlea. É mais sensato esperar 3% na média dos próximos cinco anos, o que seria um cenário de neutro para otimista", disse Pessoa, da LCA.

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