quinta-feira, 17 de maio de 2012

Acidentes, a política e as redes sociais


A colisão de dois trens do metrô paulistano, ocorrido na quarta-feira (16/5), provocou uma trombada pública entre o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, e o governador do estado, Geraldo Alckmin. Além disso, o episódio consolida de vez a percepção geral de que as chamadas redes sociais digitais levam imensa vantagem sobre a mídia tradicional nos casos em que a informação veloz e correta se torna crucial. A prova dessa afirmação está no material publicado nos sites informativos ao longo do dia do acidente e nos jornais de papel de quinta-feira (17).
 
O desencontro entre o prefeito e o governador, supostamente seu aliado político, aconteceu quando Kassab declarou a jornalistas que os hospitais municipais haviam atendido, até a hora do almoço, 103 pessoas feridas no acidente. Naquela altura do dia, o governador divulgava o número determinado por seus assessores: 33 feridos.
 
A diferença de 70 pessoas entre as duas versões, mais a ênfase do prefeito na ação dos hospitais municipais, teriam irritado o governador, segundo a Folha de S.Paulo. Além disso, o fato de a linha 3, onde ocorreu a colisão, ser a que deverá atender os passageiros que quiserem ir ao estádio de Itaquera assistir aos jogos da Copa do Mundo, provocou maior repercussão do acontecimento na imprensa internacional.
 
Tema de campanha
 
Embora os jornais paulistas evitem explorar esse assunto, sabe-se que as relações entre o governador e o prefeito não são exatamente as de dois parceiros políticos. Gilberto Kassab é muito próximo de José Serra, a quem deve o cargo, e sua iniciativa de criar o PSD pode reduzir a influência de Alckmin e suas chances de sonhar com cargos mais altos.
 
Para a disputa da prefeitura, Serra precisará contar com a força do prefeito e seus vereadores, terá que manter o seu próprio partido, o PSDB, alinhado em sua defesa, e deverá evitar no que for possível a vinculação com o governador. Para fugir da alta rejeição do atual prefeito e não ser visto como uma continuação da atual administração, seus estrategistas de campanha estão preparando um plano futurista, com projetos de alta tecnologia voltados principalmente para as áreas de informação e transporte.
 
Por essas e outras, o acidente no metrô já é tema da campanha eleitoral.
 
O primeiro acidente nos 38 anos da história do metrô paulistano vai se transformar numa efeméride importante também pelo que poderia ter sido. O choque ocorreu a uma velocidade entre 9 e 12 quilômetros horários, e os ferimentos foram provavelmente causados pela freagem brusca. Se o trem que colidiu estivesse trafegando à velocidade sugerida pelo sistema – 100 quilômetros por hora –, teria havido uma tragédia.
 
O fato de a colisão ter ocorrido em um trecho a céu aberto também pode ter concorrido para evitar um pânico ainda maior, e os jornais destacam que certamente estaríamos relatando uma tragédia se o maquinista do trem que colidiu não tivesse visto a tempo a outra composição parada à sua frente.
 
Para a oposição, trata-se de uma oportunidade de martelar no tema do transporte público, que inferniza a vida do paulistano e de quem precisa dos serviços localizados na capital, como os hospitais especializados.
 
As redes digitais
 
O título principal no caderno “Cotidiano” da Folhade S.Paulo reflete o que circulou nas redes sociais momentos após o fato: “Pânico no metrô”. A superlotação em praticamente todas as linhas, o trânsito caótico na capital paulista e a má qualidade do sistema de ônibus são temas diários nas redes digitais de relacionamento, e até aqui o metrô era tido como um meio seguro, ainda que desconfortável.
 
As descrições sobre falta de informações, portas travadas, condições inadequadas de escape da área onde ocorreu a colisão pipocaram ao longo do dia em mensagens que foram repassadas para portais da internet e emissoras de rádio.
 
As imagens publicadas pelos portais informativos e reproduzidas no dia seguinte pelos jornais de papel também foram produzidas por passageiros.
 
A edição de quinta-feira (17) do Estado de S.Paulo vem recheada de comentários curtos que vítimas e testemunhas dispararam pelo Twitter no calor do acontecimento. O cruzamento de informações trocadas na rede permitia ao cidadão conectado formar uma ideia geral do acontecimento já no começo da tarde, e tomar decisões importantes para superar o problema da volta para casa.
 
O caso ilustra bem como funcionam as redes complexas quando se impõe um conteúdo de amplo interesse coletivo. O episódio revela que trens e políticos podem trombar a qualquer momento, mas a comunicação em rede sempre encontra o melhor caminho entre a informação e quem precisa dela.eira (17).
 
Por Luciano Martins Costa para o Observatório da Imprensa 
 

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